Textos

A valsa (redonda) da solidão

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É como criar um escudo, que na nossa mente é temporário mas acaba por passar despercebido que ainda está ali. É como dizer que tudo está no lugar, quando por dentro tá mais revirado que a cama quando se acaba de despertar. É como dar os passos com a certeza do que quer, quando na realidade está mesmo é confuso e não sabe nem por onde começar pra arrumar. Estranha essa vida que nos joga daqui pra lá, e nos apresenta mudanças, novidades, nos vira de ponta cabeça e nos chacoalha. Aí voltamos tontos, atordoados, sem saber bem o rumo que a gente pretende seguir. Concluí depois de um tempo que somos atores dessa cena sem ensaio, dessa rotina que mais parece peça teatral, e não pense que falo de falsidade, falo é da ilusão. Somos atores inconscientes, pensando que a felicidade é fazer o que der na telha e se dane o resto enquanto continuamos nos importando em seguir só. No silêncio do quarto escuro, talvez tão escuro quanto o vazio no peito, a gente deseja mais que tudo um abraço sincero que estremeça as pernas, um olhar perdido que nos coloca no lugar, uma mão estendida que seja mesmo confiável, um ombro amigo que suporte sem reclamações a nossa ladainha, desejamos nunca estar só no mundo. Porque estar só é necessário, mas cansa depois de um tempo. Precisamos de relações, de diferenças, de confrontamentos, de questionamentos e de manias alheias. A nossa cansa. A gente cansa. E não é vergonha admitir, pra ninguém. Melhor mesmo é assumir: eu não sei ser só! Porque é assim que percebemos o quanto ainda somos humanos, e sobretudo o quanto ainda precisamos uns dos outros, o quanto queremos a mesma coisa, o quanto o amor sempre foi, ainda é e provavelmente será sempre o sentimento mais necessário e escasso na humanidade. Chega de aceitar calado a solidão, chega de tentar – em vão – ser feliz sozinho, porque há muito tempo já dizia Tom Jobim: “fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho.” Vamos assumir que caminhar só pela vida não tá com nada, e dar as mãos, sorrir, seguir sabendo que temos um ao outro, porque na companhia da solidão a gente roda, roda, roda e nunca sai do lugar.

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