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Em nossa própria companhia

DSC07858É surpreendente como podemos sentir-nos sós mesmo cercados de uma multidão. Hoje, em uma conversa, alguém me disse que a amizade não existe, que é uma ilusão. Isso me fez pensar. De início algo dentro de mim instintivamente gritou: Ei, como pode dizer um absurdo como esse? Mas parei por alguns segundos e espera, talvez ela estivesse certa. Talvez a amizade não exista. E não pense que estou sendo trágica, apenas realista. Desconsiderando nossa família, que nasce já com a obrigação de nos amar e estar ao nosso lado (ainda que isso muitas vezes não aconteça), ninguém tem obrigação nenhuma de nos fazer companhia, de aturar nossos problemas, de ouvir nossos chororôs, de nos abraçar e nos dar o carinho que a gente acha que vai nos preencher. A amizade existe pela convivência, pelas coincidências, pelos pontos em comum, pelo interesse (e sempre há um pingo que seja), pela necessidade, pela carência, pelo vazio. A amizade longe é menor, quase não existe. E por mais que a gente jure que nem o tempo e nem a distância mudarão o sentimento, sempre muda. O calo aperta, a rotina sufoca, as conversas de horas se tornam um bom dia e boa noite, no máximo e quando a gente vê quase não tem mais contato, muito menos afinidades e aí acaba, passa, esfria, adormece. Não me entendam mal, não quero parecer do tipo que não confia em ninguém e em nenhuma relação pessoal estabelecida com outro alguém, só venho refletir sobre o fato de que no fundo a gente sempre vai se afastar do outro, a vida naturalmente faz isso por nós e que embora você esteja cercada de pessoas que se dizem seus amigos, eles nem sempre vão fazer por você tudo que espera. Assim como você não fará por eles tudo que eles esperam. Essa é a lei da vida. As pessoas sempre vão nos decepcionar, nem sempre estarão dispostas a nos ouvir e os nossos problemas não serão interessantes na vida delas, aceite os fatos. Precisamos amar as pessoas, claro. Precisamos nos relacionar, claro. Precisamos ajudar o outro, claro. Precisamos estar ao lado das pessoas que são boas para nós, claro. Mas ninguém tem obrigação de estar 24 horas disponível e simpático pra você, afinal todos temos medos, problemas, pendências, atrasos, afazeres e uma vida pra levar em frente. Depois de pensar tanto, creio mesmo que a amizade não existe, é apenas um conforto, uma afinidade que vem, brilha, faz bem, e vai embora, passa. Não por maldade, mas porque os caminhos levam a lugares diferentes e isso acontece de uma forma natural. Os reencontros podem ser como se nada tivesse mudado, ou não, mas a amizade, aquele sentimento de fazer qualquer coisa pelo outro, na maioria das vezes some, e quando se dá conta é possível contar nos dedos quantas pessoas fariam tudo por você. Experimente, conte nos dedos por quantas pessoas você faria qualquer coisa nesse mundo. Seja sincero, sinceridade é imprescindível. Aprendi então que no fim das contas preciso mesmo é confiar em mim, acreditar em mim mesma e me amar mais do que qualquer coisa, porque nessa corrida sou só eu em minha própria companhia. Todo mundo um dia nos deixa, menos nós mesmos.

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A ponta do iceberg

ilustraçãoEla era como um iceberg, mostrava ao mundo uma ponta do que realmente sentia, do que realmente pensava e achava com seus botões que se achavam maduros, quando na verdade ainda eram meras crianças assustadas.. Escondia do mundo o tamanho de si, parecia pequena mas era grande nos sonhos, nas vontades, nas dores e até no medo.  Pisava leve pelos caminhos tortuosos que a vida sempre se encarrega de trilhar, mas mal sabiam o peso que suportava dentro dela. O mundo na verdade sempre lhe pareceu como uma roda gigante, iluminado, grande, assustador e quando se está lá dentro girando só restam duas opções: fechar os olhos por medo e perder a paisagem, ou desfrutar do frio da barriga entre tantos altos e baixos e ter uma das melhores sensações da vida. Vivia num parque de diversões, amava mesmo a roda gigante, jamais cansava de girar. Seus sonhos eram sempre altos, amigos das nuvens, e a vontade que ela carregava no peito sempre fora maior do que ela mesma, em tudo transbordava. Turbilhão que era essa menina, cabeça cheia de ideias malucas, que pareciam nunca dar certo, sempre em curto prazo. Hoje serenidade, amanhã irritação. Hoje brisa, amanhã trovão. Era assim que se fazia todo dia, deixava que o vento lhe trouxesse quem seria, não gostava de rotina, de mesmice, de ser igual. Como todos os outros seres humanos ela era estranha, cheia de defeitos insuportáveis, de mania incompreensíveis e de opiniões metamórficas, ela era mesmo metamorfose. Viveu fases e fases. Nunca viveu tão incerta como hoje. Não sabe absolutamente nada do amanhã, não sabe nada do que virá nos próximos segundos e querem saber? Ela ama isso. Ama as surpresas do destino, ama pisar sem saber onde vai dar, ama viver sem esperar, sem planejar. Afinal, o que é a vida a não ser um conjunto de incertezas que podem nos levar a alegria de ser feliz? Doce, mas nem tanto, ela escolheu viver assim. Cultivava o dom de ser leve ainda que fosse na verdade um furacão.

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A valsa (redonda) da solidão

DSC08165É como criar um escudo, que na nossa mente é temporário mas acaba por passar despercebido que ainda está ali. É como dizer que tudo está no lugar, quando por dentro tá mais revirado que a cama quando se acaba de despertar. É como dar os passos com a certeza do que quer, quando na realidade está mesmo é confuso e não sabe nem por onde começar pra arrumar. Estranha essa vida que nos joga daqui pra lá, e nos apresenta mudanças, novidades, nos vira de ponta cabeça e nos chacoalha. Aí voltamos tontos, atordoados, sem saber bem o rumo que a gente pretende seguir. Concluí depois de um tempo que somos atores dessa cena sem ensaio, dessa rotina que mais parece peça teatral, e não pense que falo de falsidade, falo é da ilusão. Somos atores inconscientes, pensando que a felicidade é fazer o que der na telha e se dane o resto enquanto continuamos nos importando em seguir só. No silêncio do quarto escuro, talvez tão escuro quanto o vazio no peito, a gente deseja mais que tudo um abraço sincero que estremeça as pernas, um olhar perdido que nos coloca no lugar, uma mão estendida que seja mesmo confiável, um ombro amigo que suporte sem reclamações a nossa ladainha, desejamos nunca estar só no mundo. Porque estar só é necessário, mas cansa depois de um tempo. Precisamos de relações, de diferenças, de confrontamentos, de questionamentos e de manias alheias. A nossa cansa. A gente cansa. E não é vergonha admitir, pra ninguém. Melhor mesmo é assumir: eu não sei ser só! Porque é assim que percebemos o quanto ainda somos humanos, e sobretudo o quanto ainda precisamos uns dos outros, o quanto queremos a mesma coisa, o quanto o amor sempre foi, ainda é e provavelmente será sempre o sentimento mais necessário e escasso na humanidade. Chega de aceitar calado a solidão, chega de tentar – em vão – ser feliz sozinho, porque há muito tempo já dizia Tom Jobim: “fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho.” Vamos assumir que caminhar só pela vida não tá com nada, e dar as mãos, sorrir, seguir sabendo que temos um ao outro, porque na companhia da solidão a gente roda, roda, roda e nunca sai do lugar.

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A valsa (redonda) da solidão

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É como criar um escudo, que na nossa mente é temporário mas acaba por passar despercebido que ainda está ali. É como dizer que tudo está no lugar, quando por dentro tá mais revirado que a cama quando se acaba de despertar. É como dar os passos com a certeza do que quer, quando na realidade está mesmo é confuso e não sabe nem por onde começar pra arrumar. Estranha essa vida que nos joga daqui pra lá, e nos apresenta mudanças, novidades, nos vira de ponta cabeça e nos chacoalha. Aí voltamos tontos, atordoados, sem saber bem o rumo que a gente pretende seguir. Concluí depois de um tempo que somos atores dessa cena sem ensaio, dessa rotina que mais parece peça teatral, e não pense que falo de falsidade, falo é da ilusão. Somos atores inconscientes, pensando que a felicidade é fazer o que der na telha e se dane o resto enquanto continuamos nos importando em seguir só. No silêncio do quarto escuro, talvez tão escuro quanto o vazio no peito, a gente deseja mais que tudo um abraço sincero que estremeça as pernas, um olhar perdido que nos coloca no lugar, uma mão estendida que seja mesmo confiável, um ombro amigo que suporte sem reclamações a nossa ladainha, desejamos nunca estar só no mundo. Porque estar só é necessário, mas cansa depois de um tempo. Precisamos de relações, de diferenças, de confrontamentos, de questionamentos e de manias alheias. A nossa cansa. A gente cansa. E não é vergonha admitir, pra ninguém. Melhor mesmo é assumir: eu não sei ser só! Porque é assim que percebemos o quanto ainda somos humanos, e sobretudo o quanto ainda precisamos uns dos outros, o quanto queremos a mesma coisa, o quanto o amor sempre foi, ainda é e provavelmente será sempre o sentimento mais necessário e escasso na humanidade. Chega de aceitar calado a solidão, chega de tentar – em vão – ser feliz sozinho, porque há muito tempo já dizia Tom Jobim: “fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho.” Vamos assumir que caminhar só pela vida não tá com nada, e dar as mãos, sorrir, seguir sabendo que temos um ao outro, porque na companhia da solidão a gente roda, roda, roda e nunca sai do lugar.

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